As histórias de brasileiros que optaram pela terra dos antepassados alemães


31 Aug
31Aug


Estudo, trabalho, segurança. Quase dois séculos depois de primeira leva de imigrantes alemães chegar ao Brasil, filhos, netos, bisnetos e trinetos deles falam sobre a decisão de viver na Alemanha e a vida no país.


Há quase duzentos anos, a fim de povoar um Rio Grande do Sul com espaço de sobra – e constantemente ameaçado pelos castelhanos –, o imperador Dom Pedro 1º teve uma ideia: oferecer nacos de terra a homens e mulheres castigados por uma Europa faminta, empobrecida e carente de boas colheitas. Resultado: em julho de 1824, os primeiros imigrantes formaram a chamada Colônia de São Leopoldo, precursora de uma série de regiões que seriam ocupadas pelos então estrangeiros. Os pioneiros, no entanto, já chegaram seis anos antes e se instalaram no sul da Bahia.

Se o motivo que levou milhares de alemães a tentar a vida em um novo continente foi basicamente econômico, as razões de quem retorna hoje à terra dos antepassados são muitas: estudo, trabalho, mudança de ares e, ao mesmo tempo, fuga da violência e falta de perspectivas – algo que também marcou a imigração de dois séculos atrás.

A médica veterinária Luciane Behle, de 48 anos, nascida no Rio Grande do Sul e radicada desde 1975 no Espírito Santo – outro estado com forte colonização germânica –, conta que a decepção com a política e a economia fez com que ela, a filha e a mãe batessem o martelo: vão para Berlim. Para ficar. No ano passado, as três moraram na capital alemã durante três meses. Gostaram e decidiram se mudar em definitivo.

"Receio que a minha filha não tenha as mesmas oportunidades que eu tive no Brasil. Isso foi determinante", diz Luciane, prestes a fazer o trajeto inverso ao dos avós, que vieram de cidades como Vechta, Essen e Berlim.

Enquanto a mãe, de 77 anos, domina o idioma, ela e a filha, de 16, precisarão estudar para se comunicar fluentemente. Além disso, há o projeto de um doutorado.

Especialista em cirurgia em pequenos animais, Luciane se encanta com o fato de os alemães levarem cães a muitos lugares onde no Brasil normalmente é proibido – como repartições públicas e restaurantes. E enfatiza que, mesmo tendo a cidadania alemã, mudar-se de país não é tarefa fácil.

"Dá um trabalho gigantesco mover toda uma vida, arrumar toda a documentação. E sei que sempre sentirei falta dos amigos e da comida brasileira", diz.

Entre TI e o "atraso digital”

A jornalista Alice Gehlen Adams, de 36 anos, e o marido Daniel Martin, de 39, que trabalha com tecnologia da informação (TI), são de Novo Hamburgo, cidade que na época da chegada dos primeiros imigrantes pertencia a São Leopoldo. Os dois moram em Schwetzingen, Baden-Württemberg, mesmo estado de onde emigrou o bisavô de Daniel, em 1927.

Graças às raízes alemãs, o gaúcho obteve a cidadania em setembro. Os motivos da mudança foram a criação dos filhos (de 3 e 7 anos) e também uma oportunidade profissional: no sul do Brasil, ele trabalhava em uma filial da SAP, empresa alemã do setor de tecnologia. A transferência ocorreu em 2017.

Adaptadas, as crianças falam alemão fluentemente. Os pais conseguem se comunicar, embora o inglês ainda seja utilizado na "hora do aperto". Alice já concluiu o nível intermediário e conta que um dos momentos de maior aprendizado é justamente quando os amigos dos pequenos estão na casa deles. Com os filhos, porém, a comunicação ainda ocorre sempre em português.

Bem recebido na comunidade local, o casal destaca o trânsito, a segurança, as áreas públicas e as ciclovias como pontos positivos da mudança. Estranham, no entanto, a burocracia do setor de serviços e o "atraso digital". "Nunca recebemos tantas cartas em tão pouco tempo", diz Alice.

O fato de os mercados não abrirem aos domingos é outra característica marcante, na opinião deles. Domingo, aliás, é um dia destinado ao silêncio na Alemanha. "Cuidado ao usar a máquina de lavar ou o aspirador de pó. É possível ser xingando por um vizinho. Isso é outra coisa que é preciso entender: a maioria das pessoas age de maneira direta, o que é facilmente confundido com grosseria", enfatiza.

Brasileira ensina alemão na Alemanha

A professora de alemão Haidi Scheibe, de 36 anos, nasceu na localidade rural de Nova Boa Vista, próxima a Sarandi, no interior do Rio Grande do Sul. Cresceu bilíngue, comunicando-se em português e em hunsriqueano, dialeto germânico que tem origem na região do Hunsrück, no estado da Renânia-Palatinado, de onde saíram muitos imigrantes rumo ao sul do Brasil.

Adolescente, foi para o internato do Instituto Ivoti, na região metropolitana de Porto Alegre, onde teve aulas de alemão, e fez programa de au pair na Alemanha. Na faculdade, estudou Letras Português/Alemão.

Em 2016, lecionava o idioma estrangeiro numa escola particular da capital gaúcha e candidatou-se a um intercâmbio educativo na Alemanha. Não voltou mais. O marido, Maurício Flach Renner, jornalista de 38 anos, também emigrou – e trouxe junto seu dachshund, também chamado de dackel no país.

Hoje, eles moram em Zwickau, cidade de cerca de 100 mil habitantes, na Saxônia, e são pais de um menino chamado Ingo, de apenas cinco meses. Criar um filho é grande desafio, segundo eles, por estarem longe dos familiares.

"Nunca passou pelas nossas cabeças ficar. Porém, quando estava trabalhando na escola, os colegas me falaram que por aqui há falta de professores. Foram meses de correria e muita burocracia, documentação, traduções e entrevistas. Não me sinto segura em afirmar se é isso que quero para sempre. Mas no momento está sendo bastante bom", afirma Haidi.

Segurança e pontualidade encantam a gaúcha e o marido. Como dá aulas pela manhã, ela precisa sair de casa às 6h30min. O ônibus passa às 6h44min, e pontualmente às 7h17min ela chega à escola. No Brasil, diz, o serviço era tão ruim e atrasado que um terço do salário era destinado para transporte de aplicativos.

"Era um estresse! Além disso, aqui não preciso olhar para os lados para me certificar de que há alguém suspeito", reforça. Maurício concorda: "É só depois de viver um pouco sem essa preocupação que tu vês como isso consome as tuas energias."

Para ele, a objetividade dos alemães é uma grande diferença em relação ao Brasil: "Ninguém vai ficar te paparicando. É possível ter experiências frustrantes, mas acho que quando tu vais morar em outro lugar, o melhor é se adaptar ao jeito que ele funciona, e não esperar que ele se adapte ao teu jeito."

Estudante do nível intermediário de alemão, ele diz que atualmente consegue dominar melhor o idioma. "Estou mais confortável até para fazer brincadeiras. É divertido, porque a maioria dos alemães é bastante literal e sempre acha que tu estás falando sério. Estamos nos entendendo", resume.

Quanto ao filho, a ideia é criá-lo bilíngue. "Se ele falar português com sotaque alemão, isso não será um problema. Já estamos acostumados com isso na família", brinca o pai.

MBA em meio ao respeito às diferenças

O engenheiro Adrian Flaksbaum Moll, de 32 anos, é natural de São Paulo. Já havia morado em Düsseldorf durante meio ano, em 2012, e há apenas dois meses está em Colônia para fazer um MBA. O avô dele era de Hörde, Dortmund.

A avó, da cidade de Goslar, no estado vizinho da Baixa-Saxônia. Emigraram para o Rio de Janeiro, e depois para São Paulo, no período entreguerras. O avô inclusive retornou à Alemanha em 1938 e, de volta ao Brasil, foi preso político durante a Segunda Guerra Mundial.

"Depois de trabalhar por cinco anos em São Paulo, entendi que era o momento de fazer um MBA para o meu desenvolvimento profissional. Decidi pela Alemanha. Depois, a ideia é ficar e trabalhar pelo menos mais alguns anos", conta.

A língua, neste caso, foi uma vantagem. Quando criança, o pai falava somente alemão com os avós, o que serviu de base para um aprendizado mais aprofundado na escola, na capital paulista, onde, segundo ele, viver bem custa caro.

"Aqui na Alemanha há uma série de opções de lazer relativamente baratas, o transporte público funciona muito bem, ando de bicicleta e me exercito muito mais no dia a dia", destaca.

Quanto a outros pontos positivos, Adrian é mais um que enfatiza a segurança: "Refiro-me tanto à vida cotidiana nas cidades, sem receio de assaltos em casa ou na rua, quanto ao fato de ser gay e saber que estamos em um país que respeita as diferenças."

Em relação aos pontos negativos, fala da saudade dos amigos e da adaptação não muito fácil à culinária alemã. Acha estranho, também, o pagamento do Kirchensteuer (imposto da igreja) por quem declara ser membro das Igrejas Católica ou Evangélica. "Em um país laico e bastante racional, me parece uma grande contradição", diz.

Novos ares na antiga capital

Há cinco anos, a conclusão do mestrado e o término de um relacionamento levaram o biólogo paulista Gabriel Frey, de 36 anos, a mudar-se para Bonn, capital da antiga Alemanha Ocidental, onde faz doutorado.

Do lado paterno, por exemplo, seus antepassados partiram de regiões como Magdeburg, Pommern (Pomerânia, uma região no norte do país), Neustadt Oberschlesien (hoje Prudnik, na Polônia) e Hannover, na década de 1920.

Na Alemanha, Gabriel considera as pessoas "mais preparadas para viver em sociedade". Ele aprecia os longos dias de verão e despreza os curtos e escuros do inverno. Destaca ainda o retorno do dinheiro dos impostos para a população, a inclusão de deficientes e o maior respeito aos idosos.

Quanto ao idioma, relembra que estudou em colégio alemão, no Brasil, e que a avó falava com o pai e os tios, mas as dificuldades foram grandes no início devido à falta de vocabulário. Termos técnicos e a parte burocrática dos formulários seguem difíceis.

Quanto à "falta de flexibilidade" dos locais, para ele, há dois lados: "É bom o fato de que eles seguem regras, mas sair um pouco delas e ser criativo não é o forte. Adaptar um cronograma e encaixar algo espontaneamente não funciona muito bem para eles", afirma.

Fonte: Deutsche Welle - Link:  https://www.dw.com/pt-br/not%C3%ADcias/s-7111

Pesquisa: Portal Brasil Alemanha -  http://www.brasilalemanha.com.br/novo_site/


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